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MUNDIAL - TODO O TERRENO - DAKAR 2019 - SEGUNDO A OPINIÃO DE JOÃO CARLOS COSTA - COMENTADOR EUROSPORT

Domingo, 06 Janeiro 2019 21:56 | Actualizado em Sexta, 08 Novembro 2019 09:59

CARROS / DAKAR 2019
ENTRE A SEXTA VITÓRIA PRIVADA E UM PASSEIO DO REI DAS DUNAS

Em 40 anos, as equipas oficiais têm dominado o “Dakar” nas quatro rodas: a Mitsubishi venceu 17 vezes; a Peugeot, 7; a Citroen, Mini e VW, 4; a Porsche, 2; Renault, 1. Restam cinco triunfos privados: os dos Range Rover na primeira edição (perdendo para as três melhores motos na classificação conjunta) e na terceira, o Mercedes de Ickx em 1983 (sim, privado, pois era mais um projecto da Texaco do que da marca germânica) e os dois de Jean-Louis Schlessser com os Buggy-Renault, o último em 2000. Será que Sebastien Loeb conseguirá vencer esta edição como piloto privado, ao volante de um Peugeot 3008 DKR da PH Sport?
Esta é uma das grandes interrogações do “Dakar” 2019 nos carros. O evento sorrirá finalmente nove vezes campeão do mundo de ralis e logo no ano em que a marca francesa deixou a prova nível oficial? Ou será que a Toyota, depois de vencer pela primeira vez as 24 Horas de Le Mans em 2018, conseguirá também no “Dakar” colocar um ponto final em demasiados anos de expectativas goradas? Ou teremos a Mini, com a X-Raid a apostar em dois carros diferentes, a regressar ao triunfo do qual está arredada desde 2015?
Uma coisa parece certa – o vencedor da 41ª edição nos carros sairá de uma destas três “opções”. Três marcas que vão a jogo com “fatos” bem diversos, todos com evoluções, menos os 3008 DKR. A Toyota continua a apostar nos 4x4 com motor “encorpado” a gasolina; os Peugeot, mesmo privados, representam o que mais eficaz há no campo dos buggy 2RM turbo-diesel. A Mini coloca os ovos dos dois lados da cesta (2 e 4 RM, mas sempre turbo-diesel) e com uma equipa de pilotos que soma qualquer coisa como 21 vitórias na prova!!!
Na areia das dunas e nas pistas abertas, os buggy, fruto de um menor peso, rodas de maiores dimensões e o sistema automático de pressão de pneus, podem fazer a diferença. Mas os 4x4, sobretudo a gasolina, são mais lineares na potência e menos intempestivos de guiar. Um factor a ter em conta nas dunas, mas também em zonas mais sinuosas, onde a tracção pode fazer ganhar segundos. Quase me atrevo a dizer que, mais do que os carros, vão ser os pilotos a fazer a diferença. Não apenas em andamento (aí parece ser “a fundo” para todos... e todos eles são de primeira água), antes na gestão das dificuldades, sejam do terreno, seja da mecânica.

MINI
Dois carros diferentes na procura da 5ª vitória da X-Raid – Mini JWC Buggy e Mini John Cooper Works 4x4 (Evo 2019). Sven Quandt foi buscar os ex-Peugeot, Stephane Peterhansel, Carlos Sainz e Cyril Despres para guiar os 2RM. Nos 4x4 estarão Nani Roma, que este ano ganhou Hungria, Turkmen Desert Race e a Baja Portalegre (na estreia desta versão 2019); o polaco Jakub Przygonski (vencedor da Taça do Mundo TT em 2018 e 5º no Dakar 2018); o saudita Yazeed Al-Rajhi (impôs-se no Cazaquistão e no Silk Way 2018); e o argentino Orlando Terranova (que ganhou o Desafio Inca 2018, com quatro etapas em terreno igual ao “Dakar” 2019).
Claro que há quatro nomes que se destacam... até pelo palmarés anterior (21 triunfos à geral). Roma fará o 22º “Dakar”, tendo ganho em 2004 nas motos e em 2014 nos carros. Sainz quer repetir 2018 e vencer pela terceira vez... com três carros diferentes, a caminho dos 57 anos. Coube-lhe a fatia maior do desenvolvimento do Mini JWC Buggy durante o defeso, ainda que a presença no Rali de Marrocos não tenha tido os resultados esperados. Ainda assim, o espanhol conseguiu tornar o carro mais estável e evitar a tendência “natural” da traseira saltar em demasia. Para Peterhansel será a 30ª presença aos 53 anos. Quer a 14ª vitória (tem seis de moto, todas com Yamaha, e sete com três carros diferentes [Mitsubishi, Mini e Peugeot]). O senhor Dakar deseja também reforçar o número de triunfos em especiais – 74, dos quais 41 de carro e 33 de moto. Era sua vontade fazê-lo com um novo desafio – ser navegado pela mulher (Andrea Mayer), que tem nove presenças no “Dakar”, tendo acabado em 5º na edição de 2005. Projecto adiado para 2020. Mas tem um novo navegador, na pessoa de David Castera, parceiro de muitas aventuras no tempo das motos. Já o habitual “lado direito”, Jean-Paul Cottret, dividirá desta feita o habitáculo com Cyril Despres, sendo um trunfo a ter em conta no desejo do francês em repetir os feitos de Hubert Auriol, Peterhansel e Roma – vencer em 2 e 4 rodas!
Resta saber qual é a melhor escolha de “montada” na armada X-Raid. O Mini 4x4 parece sofrer um pouco com o peso da antiguidade – um projecto com oito anos. Já o Mini Buggy, pelo contrário, continua muito pouco “maduro”, ainda que o desenvolvimento do carro esteja a um nível bem mais avançado do mostrado na presença desastrosa no ano passado.
O que separa então as duas propostas Mini? Os buggy são mais leves (1675kg / 1850kg), mais largos (2220mm / 2000mm) e têm maior distância entre eixos (3100 mm / 2900mm). O motor do buggy é central dianteiro, enquanto no Mini 4x4 está montado na frente, ainda que muito recuado, e com os depósitos de combustível atrás dos bancos. No buggy, a suspensão não tem os mesmos limites de 810 mm de curso dos 4x4. As jantes são também maiores - 17 contra 16 polegadas, com um diâmetro máximo de 940 mm contra 810 mm. A menor altura da posição de condução nos buggy não beneficia a visibilidade nas dunas, mas aí o sistema automático de pressão de pneus e o centro de gravidade mais baixo podem dar-lhes vantagem. Por sua vez, nas zonas de pista com mais condução, os 4x4 terão uma traseira mais estável e com mais tracção.
O motor é o mesmo – ainda e sempre o 6 cilindros em linha, 3 litros, turbo-diesel (conhecido como 50D na gama BMW). Este ano tem um turbo variável mais moderno, oferecendo um reforço de potência disponível em todos os regimes. A caixa de velocidades é diferente. Xtrac no buggy; Sadev nos 4x4. Os buggy têm duas rodas suplentes (deitadas debaixo dos bancos e não verticais como nos 3008, para beneficiar a repartição de massas); os Mini 4x4 podem levar três – duas deitadas, uma ao alto.
Para 2019, os Mini JWC 4x4 2019 tem uma grelha de maiores dimensões e estão mais “magros” (1850 kg), apesar dos reforços no chassis e suspensões.
Os Buggy Mini já foram pensados em 2018 para o limite máximo de vias (2200 mm). Têm 4320 mm de comprimento (mais 10 mm que os Peugeot) e uma distância entre eixos de 3100 mm (contra 3000 dos 3008), mas é mais alto (1930mm) que o carro francês (1750mm), sendo a entrada de ar no topo do habitáculo a maior razão para a diferença.
Face à concorrência oficial, leia-se Toyota, há a vantagem do consumo do motor turbo-diesel: os Mini têm apenas um depósito de combustível de 365 litros para a autonomia regulamentar de 800 km. Nos carros a gasolina, os reservatórios chegam a ultrapassar os 500 litros.

PEUGEOT

Em quatro anos de uma segunda aventura no “Dakar”, a Peugeot venceu nos três últimos e num deles com um pódio 100% Peugeot, para além de terem conseguido 25 triunfos em especiais. Carlos Tavares, o patrão do Grupo PSA, achou ser hora para um ponto final. Mas a marca francesa continua na prova com equipas privadas e com todas as gerações DKR - 2008, 3008 e 3008 Maxi.
A quarta vitória consecutiva da Peugeot é o objectivo da PH Sport, que corre com os 3008 “2ª mão” desde 2017. Desta feita, inscreve três carros. O mais “velho” estará nas mãos do privado Pierre Lachuame, que se estreia no “Dakar”, mas fez várias provas em Marrocos. Harry Hunt tem o mais novo, com as vias largas e a carroçaria de 2400mm. Sebastien Loeb não pode usar um Maxi, porque os buggy de vias mais largas estão interditas aos pilotos da lista “Elite” da ASO. O alsaciano tem de se contentar com um 3008 “2017”, com vias de 2200mm, tal como os buggy Mini, mas um motor versão 2018.
Terá Loeb a mesma motivação de vencer o “Dakar” agora que assinou com a Hyundai para o WRC e poucos dias depois estará à partida do Monte Carlo? Acredito que sim, até que essa motivação seja total, também para “vingar” os desaires anteriores. O piloto francês, sempre acompanhado pelo fiel Daniel Elena, reencontra Bernard Piallat, o patrão da PH Sport e que começou a carreira nos automóveis como mecânico na Simon Racing. Foi Piallat o responsável pela preparação dos Peugeot 106 que tornaram Loeb famoso por terras gaulesas em 1997 e lhe abriram as portas do Grupo PSA. Como curiosidade, pela estrutura de Piallat nos ralis também passaram nomes como Sebastien Ogier, ou mais recentemente, Robert Kubica.
Problema para Loeb pode ser a falta de testes e provas. Zero ralis TT desde a edição anterior e só fez um ensaio com este carro, em Abu Dhabi, onde teve vários problemas e atascansos.
Já Harry Hunt tem a experiência de toda uma temporada com alguns bons resultados. Será o britânico capaz de lutar pela vitória? Se acontecer, seria para mim uma enorme surpresa, ainda que um Top 5 esteja no campo das reais possibilidades.

TOYOTA

Depois de ter ganho Le Mans após 30 anos de tentativas falhadas, a marca japonesa deseja, finalmente, vencer o Dakar. Seria uma forma perfeita de completar um “bouquet”, onde se juntou o regresso a um título de marcas no WRC.
Para a aventura 2019, a marca nipónica continua a apostar numa versão “extreme” da pick-up Hilux, mas sempre de tracção total (o projecto 2RM foi abandonado). Muitas novidades, no entanto: novo chassis, mais leve do que nunca, mas reforçado, tendo em conta que o usado por Ten Brinke chegou ao final da edição 2018 cheio de fissuras. Na “caça às gorduras”, a Toyota conseguiu ficar 40-45 kg abaixo do peso mínimo. Há também novas suspensões. O motor dianteiro está cada vez mais... central e em posição mais baixa, ainda que tenha perdido potência pelo facto do “estrangulador” da admissão de ar ser agora de 37mm e vez de 39mm (mantém-se para os turbo-diesel). Só que nas dunas, o binário, que se manteve intocável, pode fazer a diferença. No capítulo da disponibilidade de potência, o V8 a gasolina proveniente do Lexus IS-F tem para dar e vender, sem que haja o problema de perdas em alta altitude, como acontecia em algumas zonas da Argentina e da Bolívia.
A BF Goodrich desenvolveu um novo pneu para os Toyota (e Mini 4x4), passando esse a existir em duas misturas de borracha – macia e média.
Entre carros oficiais (3) e privados, a equipa Overdrive de Jean-Marc Fortin (que trabalha com a Toyota desde 2012) leva 11 veículos ao “Dakar” 2019. As Hilux oficiais continuam a ser feitas na África do Sul, pela equipa liderada por Glynn Hall; as privadas em Huy, na Bélgica. Os motores são realizados na Toyota Gazoo. Entre os Toyota oficiais e os privados (geração 2019) há uma única diferença – o diferencial central, também ele realizado no Japão.

Será tudo isto suficiente para o triunfo? Acredito que sim. Nasser Al-Attiyah, Giniel de Villiers e Bernhard Ten Brinke (que trocou o agora reformado Michel Perin pelo bem conhecido Xavier Panseri, tendo os dois feitos várias provas do campeonato francês de todo-terreno), têm experiência suficiente... até para fazerem jogo de equipa se for necessário. O qatari, vencedor em 2011 com a VW e em 2015 com a Mini, parte como chefe-de-fila e grande favorito. O facto de a prova ter muitas dunas, pode ser uma vantagem para Nasser, que as adora. E a concorrência interna não parece à altura. Diferente teria sido se alguns dos ex-pilotos da Peugeot, que passaram para a Mini, tivessem ido mais longe que simples sessões de testes com os Toyota. Sainz e Peterhansel queriam muito dinheiro e gerir o ego do espanhol, do alsaciano e de Nasser na mesma equipa nunca seria fácil...
Em 2018 ninguém venceu mais etapas que Nasser (4) e a Toyota impôs-se em 6 das 13. A vitória que chegou a parecer possível, perdeu-se com uma série de “dejantamentos” na Hilux do qatari durante a 4ª etapa. Nessa altura, cedeu quase uma hora, tendo ficado depois a 43 minutos do vencedor. Evitando situações idênticas, não será fácil bater Al-Attiyah...

AS OUTRAS MARCAS “OFICIAIS”

A Geely regressa ao Dakar, não com os 4x4, antes com os antigos buggy de SMG que Philippe Gache lhes vendeu. Gache foi escolhido para guiar um deles, num regresso ao volante. O outro será para o chinês Han Wei.
No campo da Borgward houve melhorias no BX7 de Erik Wevers, como mostrou o sétimo posto na Baja Portalegre. O mesmo aconteceu com o buggy SsangYong, agora Rexton e não Tivoli (32º em 2018), equipado com um V8 a gasolina de 335 cavalos. Oscar Fuertes volta a ser o piloto da equipa com base em Espanha. Uma palavra também para o regresso da Mitsubishi a um nível oficial muito envergonhado (via a filial espanhola). O carro é um Eclipse Cross turbo-diesel T1 de 340 cavalos e será guiado por Cristina Gutierrez.

ROBBY GORDON

Robby Gordon está de volta ao “Dakar”. Desta feita, aposta num Textron da categoria Pro UTV Score, num fundo um SxS/UTV com “hormonas”. E como pedia Zeca Afonso, o americano trouxe amigos também - Blade Hildebrand e Cole Potts, ambos estreantes, mas com muita experiência de Bajas e das provas de trucks em estádio.
Gordon quer, sobretudo, dar espectáculo e tentar ganhar mais troços (tem 10 triunfos), ainda que dificilmente volte ao pódio que obteve em 2009.

PRIVADOS

Dois ex-vencedores da Africa Eco Race estão à partida: o russo Vladimir Vasilyev, que trocou o Mini por uma Toyota Overdrive, e Mathieu Serradori, com um buggy LCR 30.
Martin Prokop aposta em fazer melhor que o 7º posto de 2018 com a mesma Ford Raptor, ainda que desenvolvida a nível de motor e chassis.
No campo Toyota, Ramon Chabot, um dos ex-reis dos buggy (7º em 2013), volta a dispor de uma Hilux para o 17º Dakar, tendo em Erik Von Loon outro grande adversário para o lugar de melhor dos pilotos Overdrive privados.
Com um Mini 4x4 versão 2018, Boris Garafulic, que fará o 8º Dakar de novo com Filipe Palmeiro, será outro que deseja, finalmente, chegar ao Top 10, depois de ter ficado três vezes a “bater à porta”.
Há mais dois Peugeot 3008 DKR Maxi, inscritos pela Easy Rally Raid para Jean Pascal Besson e Pierre Lafay. O top 15 é o objectivo, tal como acontece com a “besta” Jefferies Dakar dos manos Tom e Tim Coronel, bem com o peruano Nicolas Fuchs que partindo de um Ford Raptor construiu um protótipo FRT. Ou até para o alemão Jurgen Schroder, que apesar dos 60 anos, quer mostrar a valia das Nissan Navara V8 Red Line/South Racing, numa equipa de três carros completada pelo britânico, Thomas Bell e o sul-africano, Shameer Variawa, ambos residentes no Dubai e estreantes na prova.

O MEU TOP 10 (CARROS): 1. Al-Attiyah; 2º Loeb; 3º Peterhansel; 4º Roma; 5º Terranova; 6º Hunt; 7º De Villiers; 7º Despres; 8º Gordon; 9º Przygonski; 10º Ten Brinke

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