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MUNDIAL - TODO O TERRENO - DAKAR 2019 - A OPINIÃO DE JOÃO CARLOS COSTA - COMENTADOR EUROSPORT

Quinta, 17 Janeiro 2019 18:52 | Actualizado em Quinta, 14 Novembro 2019 05:23

A encruzilhada  do Dakar. Acabou a edição 2019. Mais do que fazer um balanço, é hora de pensar no futuro. A pergunta primeira é: ainda há espaço para a grande maratona do TT por terras da América do Sul? Respondo sim, mesmo sabendo que talvez não seja mais possível. O Dakar cumpriu um ciclo de uma década, desde a estreia por estas paragens em 2009. Mostrou que o continente tem o que é mais importante para o sucesso da prova. Pistas para todos os gostos e graus de dificuldade. Paisagens de deixar todos de boca aberta, na beleza e na variedade. Público, muito público, seja onde for, amante das "corridas", capaz de vibrar só com a ideia de Desporto Motorizado (nem precisa de ver ao vivo).
Tem também a habitual incerteza política por estas paragens (e até um ou outro fenómeno natural). O que um governo gosta, pode não ser do agrado do seguinte. Como para além da instabilidade política (e muito extremada), os países da região têm variações permanentes na situação financeira, o "perigo" de um não espreita sempre, mesmo quando o sim já fora dito, veja-se o que aconteceu este ano com Chile e Argentina.
A dúvida passa por aí: haverá vontade do ASO em continuar este jogo do gato e do rato com os políticos sul-americanos, batalhas essas que muitas vão além dos governos centrais e passam para o plano regional? Por sua vez, estarão esses dispostos a pagar aquilo que a organização pede, mais o custo da montagem da prova?
Sem Chile e Argentina, não tanto Bolívia e Paraguai, o Dakar na América do Sul deixa de ter razão de ser. Não acredito que o Peru volte a pagar a conta sozinho. Ir mais ao lado no mapa (Brasil e Uruguai), ou mais alto (parte norte do Peru, Equador ou Colômbia) não resolve os problemas de instabilidade política e acrescenta alguma falta de segurança.
Este ano tivemos um Dakar de um só país. Esse não me parece um problema, desde que se mantenham as características que se "impõem" necessárias a esta prova - dureza e variedade. O Peru ofereceu a primeira, não a segunda.
Tivemos também um Dakar mais curto e acredito que seja para manter. Dez dias parece-me uma boa bitola, até pensando nos amadores, nem tanto nas equipas oficiais. E os do Peru foram suficientemente duros para criar interesse na classificação geral da grande maioria das categorias.
Com grande pena minha, acredito que este seja o último Dakar na América do Sul. Vamos mudar de continente, pois se tal não acontecer, pode ser mesmo o fim do Dakar.
Iremos regressar ao percurso mais tradicional, em África? Não acredito. Nem tanto por questões de segurança, antes porque o Dakar aburguesou-se na América do Sul. Tal como a conhecemos, a caravana não terá facilidade em percorrer algumas das regiões mais inóspitas da África subsariana. Faltam estruturas e não apenas rodoviárias.
Angola e Namíbia candidataram-se. Também aí, o Dakar teria de ser menos burguês. Para além existirem outros problemas – a subida das águas em Janeiro na Costa do Esqueletos (zona quase obrigatória), os campos de minas, a demasiada aridez da zona, para além de questões de segurança.
Os desertos chineses podiam ser uma solução. Se não há estruturas o governo cria. Dinheiro há, a rodos, desde que haja vontade oficial. Mas talvez fosse melhor mudar a prova para outra data, algo que o ASO sempre desdenhou. E há ainda a diferença horária que obrigaria a “servir” Dakar ao pequeno almoço dos europeus.
Então rumamos onde em 2020? Argélia é muito falada. Um país do norte de África, encarnando o tal espírito do Deserto, que Thierry Sabine tão bem sabia vender. Para mais, com a hipótese de partida numa cidade europeia, para um maior boom de divulgação no Velho Continente que continua a ser o maior “consumidor” do evento, seja em participantes ou em seguidores. Os argelinos veriam na prova um cartão postal turístico, importante para o país recuperar essa enorme fonte de rendimento, perdida com os atentados e a Primavera Árabe. A ideia é boa. Mas não seria a repetição do Peru? Mais do mesmo, dia após dia?
Fica então a Arábia Saudita. Como dizia o saudoso José Megre, se tivesse que escolher um só país para fazer o Dakar era aí! A grande potência do Médio Oriente tem tudo: a variedade no terreno (sim, é muito mais que deserto), as estruturas (desde estradas e aeroportos, a cidades com todas as condições), um público ávido de ver “corridas” e dinheiro. Mas tem mais: a vontade de ser visto como um país “normal”, onde agora até as mulheres guiam...
O Dakar seria uma montra perfeita para essa “normalidade”. Para além disso, as duas horas de avanço face ao centro da Europa, permitiam fazer um melhor produto de televisão, fosse em directo (até pelos meios que há na região) ou em magazine.
Por fim, não esquecer que a ASO é uma empresa detida por um consórcio local.
Posto isto, e sem ter qualquer informação privilegiada, se me perguntarem onde será o Dakar 2020, direi: Arábia Saudita, com ou sem a presença de alguns vizinhos do Médio Oriente.

A imagem pode conter: ar livre


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