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Mundial - Sport Protótipos

24 HORAS DAYTONA - SEGUNDO A OPINIÃO DE JOÃO CARLOS COSTA - COMENTADOR EUROSPORT

Segunda, 05 Fevereiro 2018 11:15 | Actualizado em Domingo, 01 Dezembro 2019 13:44

PASSOU UMA SEMANA.



Dá para reflectir. Para interiorizar. Para perceber que, afinal, não percebia mesmo nada de corridas. Fui para Daytona para assessorar Nuno Pinto e o Pieter, o seu sócio na Winway, na gestão dos pilotos do Oreca nº 37. Acabei por nada fazer, ou quase. Queria o Nuno que o ajudasse a descortinar aqueles pequenos truques das provas de endurance. Que fosse os olhos em pleno, "lendo" a corrida dos protótipos no seu todo e percebesse onde estavam as fraquezas alheias. Passei horas a rondar as boxes. Mais ainda com um olho na pista e outro no ecrã dos tempos, na torre dos spotters. É estranho ver uma prova seguindo um só carro. Medindo o vai e vem dos tempos. Fazendo mentalmente contas dos ganhos e perdas, volta a volta, tentando perceber as tácticas alheias a cada um dos turnos. Ler, apenas com a visão da pista, como se comportavam os carros no desgaste dos pneus ou na facilidade com que geriam o "trânsito" no circuito. Enchi folhas de papel, muitas, com números e notas. Posso dizer que tive uma percepção vincada de como o Oreca-Gibson esteve na corrida até ter os problemas que o atrasaram irremediavelmente, altura em que fui liberto das funções, porque a partir daí o objectivo passou a ser levar o carro até ao fim.
Posto isto, se me perguntam: fui útil? Não fui, verdadeiramente. Fui antes aprendiz. Lembrei-me dos meus primeiros tempos no "Motor", no início da década de 80 do Século passado, onde ia às provas nacionais, não para escrever, antes para aprender, já então com a "obrigação" de fazer o "volta a volta". Basicamente, numa versão mais complicada, foi o que fiz em Daytona. A Vida é mesmo um ciclo que se repete...
Digo-Vos: na próxima vez que comentar uma prova de endurance vou fazê-lo com o pensamento naquilo que fui descobrindo, do outro lado da "barricada". A forma como se preparam os turnos, de como se gestiona combustível e pneus. Por exemplo, os Continental não podiam sofrer forças verticais excessivas nas primeiras 3 / 4 voltas - ou seja, até ganharem temperatura - pois as paredes podiam ficar afectadas e daí resultarem furos (como aconteceu em muitos carros, até no "nosso").
Percebi também que ser manager/coaching de pilotos tem muito menos glamour do que possa parecer. Claro que se viaja pelo mundo; claro que se vai às grandes provas; sem dúvida que se vive tudo por dentro, como poucos têm hipótese de fazer e se é pago para tal. Mas quem entra nessa carreira merece cada cêntimo ganho. Não é fácil gerir egos, muito menos as particularidades de cada um, para mais de pilotos de automóveis. Tudo isto potenciado à quarta em Daytona, porque a equipa do carro da Jackie Chan DCR Jota era composta por quatro pilotos geridos pelo Nuno e o Pieter. Há que cuidar de tudo. De os fazer levantar para cada turno, a perceber as necessidades especiais de cada um e conseguir convencê-los que numa prova destas não se trabalha no singular, antes para o bem comum. Aí foi onde Lance, Robin, Daniel e Felix mais me surpreenderam pela inteligência em corrida. Apesar da pouca experiência em provas de longa duração, entrosaram perfeitamente. Mais: souberam divertir-se. Algo que só se consegue quando temos certezas do nosso valor, não havendo necessidade de provar nada a ninguém. Pelo contrário, fazem-no naturalmente de cada vez que estão com o volante na mão. Tudo isto, sempre com um sorriso, uma disponibilidade única e num ambiente de puro divertimento, de prazer quase absoluto, como se as corridas de automóveis não fossem mais que uma reunião de amigos. No fundo, não é o que são?!?
Os quatro "mosqueteiros" não tiveram tarefa fácil. Primeiro que tudo, a diferença de tamanhos criava um problema no habitáculo e nas trocas de pilotos. Foram horas de treino, repetitivo e com muitas nódoas negras nos joelhos e nos braços, para que se conseguisse fazer a manobra em menos dos 29 segundos que demorava encher o depósito do Oreca. Conseguiram chegar aos 25 segundos, mas isso acabou por ter consequências, com Lance a queixar-se de dores nas costas, levando-o a não completar o último stint da corrida. Os dois "corpulentos" (Stroll e Juncadella) faziam turnos seguidos e o mesmo se passava com os dois "jockeys" (Rosenqvist e Frijns), para facilitar a gestão do "espaço" no banco com os respectivos enchimentos. O canadiano e o espanhol nunca se sentiram verdadeiramente à vontade no habitáculo do Oreca 07. A equipa Jota não se poupou a esforços para minimizar o problema, tal como não poupou em nada para ter o carro sempre nas condições ideais. Uma vez mais, tal como já tinha acontecido nos anos de 2014 e 2015 no ELMS, fiquei muito agradavelmente surpreendido com o profissionalismo da formação (agora) anglo-chinesa.
A sorte da corrida não quis nada com o #37. Não fossem os furos e depois a longa paragem nas boxes, podiam ter estado na luta pela vitória até ao fim. Digo mais: com os problemas dos Acura e a necessidade de reduzir o andamento dos Cadillac, teriam tudo para ser os vencedores. Durante muito tempo lideraram os LMP2, num testamento à capacidade dos quatro pilotos. Os tempos eram basicamente semelhantes, pese embora os mais leves tivessem uma ligeira vantagem, talvez porque que se sentiam mais à vontade ao volante. Uma vez mais, fiquei encantado com a condução de Frinjs e Rosenqvist, mesmo se o sueco ainda pregou um grande susto no início de um turno nocturno, facto que ficou como a "anedota" da prova. Felix gritava no rádio que não via nada. O engenheiro respondia que tinha as luzes do carro acesas, a que se seguiu um silêncio e um "tinha a viseira do capacete para baixo", originando uma risada geral.
Agora digo-Vos: a cada travagem, a cada manobra no tráfego, Robin e Felix faziam com que ficasse em bicos dos pés, para ver ainda mais. Foi interessante perceber como ainda me emociona essa capacidade de ver fazer bem. Sempre fui fã dos dois. Sempre achei que deviam estar na F1. Reforcei essa opinião. Felizmente que o holandês vai ter uma primeira grande oportunidade no DTM com a Audi e acredito que o louro sueco irá ser um grande candidato ao título na Fórmula E. Contudo, esquecer "Junca" e o jovem canadiano seria um erro. Stroll mostrou, para quem ainda desconfiava (cada vez menos) ser dono um golpe de volante diabólico - à noite fez maravilhas. Isso não me surpreendeu. Mas gostei de descobrir o outro lado do piloto da Williams F1. Está longe de ser um menino mimado. Tem uma paixão enorme pelas corridas, por ser piloto. Viu-o sempre com um prazer imenso, com um sorriso quase eterno nos lábios, nunca recusando uma entrevista, uma foto. Sem dúvida, mais descontraído, mais liberto do que o vemos na F1. Por isso mesmo, só falava em voltar a "repetir a dose": porque não Le Mans, porque não os GT em Spa ou em Bathurst, questionava?
Adorava voltar a ver reunido este grupo de "bandidos" com os quais adorei partilhar umas belas horas. Uma palavra também para o pai Stroll. Lawrence é um fã. Primeiro que tudo do filho. É incrível ver um magnata dos negócios, o 722º homem mais rico do mundo ("vale" 2,4 mil milhões de USD), ficar embevecido, a seguir a corrida do "Jr", tão concentrado como se estive a fazer um negócio de muitos milhões. Vibrava com uma boa volta; ficava preocupado quando algo acontecia. Dirão: isso é normal. Mas o Stroll mais velho, também vibra com as corridas, no seu todo. No entanto, não se mete, pelo menos à vista de todos, nas decisões. Deixa o filho, a equipa, os gestores de carreira, voar livremente.
Como perceberam pelas linhas acima, adorei a experiência. Claro que gostava que o "meu" carro tivesse ganho. Nestas ocasiões percebemos que o patriotismo não pode ultrapassar o profissionalismo. Mesmo que não saiba, ainda hoje, como teria reagido se a vitória se tivesse sido discutida entre o #5 e o #37...
De algo não tenho dúvidas: repetia já amanhã, uma e outra vez. Despiria com facilidade a "farda" de comentador de televisão. Acreditem que é muito mais vibrante viver as corridas desta maneira, e não apenas por se "estar lá".
Ia escrevendo este relato e pensando com os meus botões: fica-me a ideia que a minha única contribuição, de facto, acabou por nem acontecer em Daytona, antes há cerca de três meses, quando Nuno Pinto me ligou a perguntar com que equipa é que devia levar Stroll & Co a Daytona. Sem hesitar, respondi-lhe: a Jackie Chen DCR Jota. Acho que o Nuno e o Pieter (e os pilotos) não estão arrependidos do meu conselho, apesar do 15º posto final. É a esperança que tenho... para me sentir útil!

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