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Moto - Todo o Terreno

MOTOS - VOLTA AO MUNDO COM FRANCISCO SANDE E CASTRO - BOLIVIA

Quinta, 14 Dezembro 2017 20:29 | Actualizado em Sexta, 18 Outubro 2019 14:02

A estrada que vai de La Paz até Uyuni, atravessando o deserto tem muitas vezes um tempo estranho, certamente pela influencia da mistura das montanhas com o deserto. Por vezes chove com força, outras faz sol mas, quase sempre ventos fortes fazem levantar enormes tempestades de areia que atravessam a estrada e deixam a visibilidade quase a zero.

Felizmente apanhei pouca chuva e a maior tempestade de areia que atravessei não me obrigou a parar, como muitas vezes acontece.
Como já saí tarde de La Paz acabei por ficar na cidade de Challapata. Parei a moto à porta do Hotel para mais tarde a ir guardar num parque próximo mas, quando saí, um casal de vendedores ambulantes tinham aproveitado a moto para nela pendurarem a roupa que vendiam, transformando-a em montra. Não queria acreditar no que via, a moto tapada com roupa em exposição. Cena divertida.
Na manhã seguinte, ao chegar à vila de Uyuni, que hoje em dia vive dos turistas que visitam o Salar, estava a dar uma volta pela cidade à procura de um Hotel onde me instalar ou um Restaurante onde almoçar quando ouvi uma voz chamar de um passeio. Quem havia de ser? O Indiano, claro, que afinal, a pedido da Iraniana, tinha vindo mais cedo para Uyuni embora tivesse prestes a regressar a La Paz de autocarro para buscar o seu visto para entrar na Argentina. Estava a comprar óleo para fazer a revisão às duas motos.
Disse-me que estavam num simpático Hostal onde havia lugar para guardar as motos e segui-o até lá. Instalei-me e fui almoçar, que estava cheio de fome. Quando regressei juntou-se ali um grupo na galhofa enquanto o Indiano fazia a revisão à moto, ao surgir um velho e animado Argentino que também viajava de moto e um Australiano que atravessava a America do Sul de bicicleta. A Iraniana estava com um kit de tricot na mão e pedi-lhe para que fizesse um pouco junto à moto para eu a filmar enquanto o Argentino, animadíssimo pegava no reservado Indiano e com ele se punha a dançar Tango. Foi um paródia.
Mais tarde fui procurar uma agencia das muitas que organizam travessias do Salar em Jipe que aceitasse, por um valor razoável, que os acompanhasse na moto e tratassem das minhas refeições pois o Salar é tão extenso que seria quase impossível não me perder se o tentasse atravessar sozinho. A maioria dos motards, como fez o Indiano e a Iraniana ou o Argentino preferem apenas rodar um pouco no Salar para fazerem umas fotografias e vídeos e regressam a Uyuni, seguindo depois por estrada alcatroada, mas eu estava com aquela ideia de o atravessar de moto, sabendo que do outro lado havia uma ligação à fronteira com o Chile. Só não fazia ideia é que essa ligação de uns 150 Km, era toda em estradas de terra, ou puro deserto de terra sem estrada definida, com pontos em que havia muita acumulação de areia solta.
Os da primeira companhia que visitei tinham um ar simpático e começaram por me perguntar quanto eu quereria pagar, o que me pareceu um bom princípio.
Falei-lhe em cem a cento e cinquenta Bolivianos. Ele fez as contas dele  e disse que cobraria 200 Bolivianos mas que incluiria não só o almoço e jantar do primeiro dia, como o Hotel dessa noite e pequeno almoço do dia seguinte.
- Pense no assunto e diga-me amanhã de manhã, antes de partirmos.
- Já pensei. Aceito

Carretera de La Muerte


Perto de La Paz há uma estrada de terra, estreita e com enormes precipícios, que ficou conhecida quando, internacionalmente, decretaram que aquela era a mais perigosa estrada do mundo, pois era ali que, todos os anos, morria mais gente por quilómetro.
A estrada tinha camiões que a cruzavam diariamente e muitas vezes tinham que se cruzar entre eles em zonas onde não sobrava a largura de uma roda para o precipício. Por esse motivo o governo ou a Câmara local decretaram que naquela estrada, e só naquela, se circularia pela esquerda, para que fosse mais fácil aos condutores dos carros com volante à esquerda espreitarem para ver se podiam chegar mais perto do precipício quando se cruzavam com outros carros.
Hoje em dia a estrada tornou-se principalmente um atractivo turístico. Com a construção de uma alternativa alcatroada e segura, embora mais longa para certos trajectos, a maior parte dos habitantes opta por essa via e a “Carretera de la Muerte” como ainda é conhecida, é principalmente utilizada para grupos de turistas a descerem em bicicleta, o que é perfeitamente seguro se não fizerem nenhuma loucura. É verdade que nos últimos anos já lá ficou um ou outro mas ainda continuam a ser os locais a manter as estatísticas, ao caírem com os carros precipício abaixo, aumentando o numero de cruzes com flores que se encontram pelo trajecto fora.
Não pude deixar de lá ir e acabei por fazer pequenos filmes que me impressionaram mais quando os vi que quando por lá passei e evitei olhar para os precipícios. Foi divertido descer a “Death Road”, como já aparece no letreiro de entrada e a parte final, mais larga e segura, percorri-a até a um ritmo bastante rápido.
Quando cheguei ao final, procurava um sítio para almoçar quando vejo um tipo numa pequena moto a fazer-me imensos sinais. Era o Argentino, com quem já me tinha cruzado duas vezes, que saíra de casa há três anos para viajar até ao Mexico na sua pequena 125 e agora regressava. Ele tinha-se enganado, com o seu habitual ar despistado, e ía fazer a estrada a subir, em sentido contrário à maioria do transito mas sem problema de maior. Sentámo-nos numa esplanada desocupada e ficamos à conversa uma meia hora antes de ele arrancar e eu mudar para duas esplanadas à frente, onde almocei.
Tanto na chegada à “Carretera de la Muerte” como no regresso a La Paz subimos a cerca de 4500 metros onde existe um pequeno glaciar mas a temperatura nunca baixou dos 6º, o que é muito para que se mantenha. O que novamente me leva a concluir que estes muitos glaciares dos Andes parecem ter os dias contados.
Na manhã seguinte parti a caminho do Salar do Uyuni.


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