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MOTOS - HOMENAGEM A COSTA PAULO - POR PAULO VAZ DE CARVALHO

Quarta, 28 Março 2018 00:18 | Actualizado em Segunda, 16 Setembro 2019 03:24

Foto de Paulo Vaz de Carvalho.

António da Costa Paulo.
Poucos reconhecem este nome.
Os frequentadores da Sé de Vila Real perderam o fio às orações, distraídos pelo roncar de motores a dois tempos, 50cm cúbicos, quando o Costa os testava em banco de ensaio, na oficina em frente à porta poente da Catedral.
Costa Paulo não era um ganhador sistemático de corridas mas foi um fulgurante mecânico e corredor de motorizadas. Levava os seus motores até aos limites e, muitas vezes, para além dos limites do seu fôlego.
Eu era muito amigo dele.
Durante a minha adolescência, saído das aulas, passava lá a cumprimentá-lo e a olhar para as máquinas que se iam sucedendo e que o levariam a conquistar mais um troféu: Kreidler, Zundapp, Casal e, mais recentemente, a gloriosa Derbi, uma víbora no asfalto. Quando o Costa dava ao kix, o cheiro a óleo de rícino provocava-me a alucinações de velocidade e perigo; rodava o manípulo do acelerador e quando tocava as dezasseis mil rotações por minuto, a fachada da Sé reflectia e multiplicava o seu rugir e então todo o meu corpo todo era um tímpano e eu sentia arrepios de medo, mesmo estando parado, com os pés na terra.
Em pista era feroz e excessivo. Caía frequentemente, sempre a velocidades que os adversários reconheciam temerárias. Voltava a montar e seguia. Voltava a caír. Perdia a corrida, perdia mais um dedo mas, na corrida seguinte guiava com os que restavam. Ganhava. Semanas depois voltava a caír. Se a máquina ficasse em condições voltava a arrancar; voltas de atraso a perseguir uma vitória impossível. Voltava a ganhar. Na corrida seguinte tinha de encostar à berma com o motor gripado pelos excessos com que as suas rigorosas serras, limas, lixas, chaves e enorme raiva de ganhar passavam os limites do pequeno coração de ferro.
Havia prata e borracha, louros e alumínio, havia sangue nos paralelos, suor na gasolina e lágrimas no óleo derramado.
Aos motores das suas glórias e das suas desistências, vi-os eu desmontados, peça por peça, para abertura de janelas de admissão ou de escape, para melhor polimento de cilindros ou pistões, para alteração de carretos da caixa de velocidades, sempre no encalço do impossível, em trechos que ele, curva a curva, conhecia pelo raio, inclinação, pela aspereza do piso, pelo ressalto das lombas, pela fundura das poças.
Os motores abrandaram e foram-se calando.
As motas que vinham do futuro foram-se cobrindo de saudade.
As portas da oficina fecharam-se para seu descanso e dos fiéis da Sé.
Abriu um stand de venda de usados.
Fechou.
Passeou, bem vestido, pela cidade, calmamente.
A cada passo me convidava para ir ver um museu de si mesmo, por si fundado e mantido: taças de prata, outras de lata, medalhas, louros a preto e branco, outros a cores— só em fotografia, porque os louros secam e esmigalham-se.
Nunca cheguei a ir visitar o retábulo que só por suas palavras conheço, provavelmente coberto agora pelo pó do tempo.
Ontem, o Costa morreu.
Deixou-me no liceu a nostalgia do óleo de rícino queimado na corrida perdida, da curva dada com o patim a faiscar no paralelo, da saída centrífuga pela linha de corda riscada no asfalto por rastos de borracha e aço.
É provável que durante alguns meses — ou semanas — a galeria dos seus troféus e máquinas persista na ordem por que foi deixada. Depois virão senhorios ou herdeiros, medirão o espaço; dirão que “a vida continua”.
Há-de haver um baixo húmido onde o verdete e a ferrugem possam fazer paulatinamente o seu trabalho— sim, o verdete e a ferrugem nunca faltam ao trabalho e os sucateiros também não, e virão de certo—assim o façam o Clube Automóvel, o Pelouro da Cultura da CMVR, ou “Museu da Cidade”.
(... a propósito, onde é isso?).
Depois, os restos se espalharão pelas feiras de velharias na direcção do esquecimento.
Então, a identidade desportiva, ou cultural, ou técnica, da Cidade abrirá uma página branca no seu livro e escreverá sobre este seu altíssimo vulto, o que eu escrevo hoje:
“ Adeus Costa Paulo”.


Texto de Paulo Vaz de Carvalho


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