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MOTOS - VOLTA AO MUNDO COM FRANCISCO SANDE E CASTRO - NO PERU

Terça, 14 Novembro 2017 12:58 | Actualizado em Terça, 17 Setembro 2019 23:47

Fiquei na pequena cidade de Trujillo e, à hora do jantar, em vez de pegar na moto optei por apanhar um Tuktuk à porta do Hotel que me levou ao centro pelo equivalente a 50 cêntimos.

Jantei um franco com batatas fritas e, numa pastelaria, comprei um gelado antes de regressar ao Hotel.
Na manhã seguinte continuei esta travessia do deserto. No dia anterior tinha quase atropelado dois abutres que comiam restos de animais na estrada em duas situações distintas, quando eles levantaram voo tarde e hesitantemente. Desta vez apanhei pela frente um enxame de insectos que formavam uma nuvem e se estatelaram contra a viseira da moto e capacete num barulho do género “schchump”, deixando ambos carregados de manchas de pequenos corpos dilacerados.
Passados uns 350 Km, numa das várias rotundas que têm a meio dos pequenos troços de autoestrada olhei para a direita e pareceu-me ver um lago, a cerca de dois quilómetros. Eram duas e meia da tarde e achei que poderia ter junto um bom local para almoçar e fui até lá. Era o mar e só então me lembrei que rodava sempre perto do mar de onde aquele deserto parte, praticamente. Ali havia uma pequena aldeia de pescadores com dois ou três restaurantes junto ao cais, todos vazios. Uma senhora fez-me sinal de dentro de um deles a dizer que estavam abertos e sentei-me na esplanada. Almocei o pior linguado com batatas que comi na vida, acompanhado de uma cerveja.
Fiz depois mais cerca de 50 Km até encontrar um desvio para o interior a caminho da cidade de Huaraz, um local inóspito perdido no meio das montanhas e que só foi descoberto por turistas há muito pouco tempo. Os primeiros 20, 30 Km são quase todos numa estrada maioritariamente de terra mas depois, surpreendentemente, a estrada está em bom estado quando começa a subir a montanha. Tinha almoçado ao nível do mar mas agora parecia não parar de subir esta estrada quase sem movimento que por vezes atravessava pequenas aldeias habitadas por Índios com vestimentas grossas e as mulheres de chapéus altos na cabeça.
Fui sentindo a moto a perder potencia e, passados uns 100 Km, pelas cinco da tarde, fui eu que comecei a ter dificuldade em respirar e a sentir necessidade de, uma ou outra vez, respirar fundo para me oxigenar. Estava a mais de quatro mil metros de altitude. No topo da serra vi, mais em baixo, a cidade de Huaraz. Em 1970 um tremor de terra em que morreu mais de metade da população destruiu-a por completo tendo, desde então, vindo a ser reconstruída. A catedral ainda não está pronta, não se percebe se por não haver verba para a acabar, como me sugeriram dois habitantes, ou se por haver pouca vontade de um povo cujas origens acreditavam em outros Deuses que não o católico. 
Felizmente começava a descer mas mesmo na cidade, a mais de três mil metros, continuava a respirar mal. Só no dia seguinte, mais habituado à altitude, me senti melhor.




Trujillo - Peru


Quando deixei Mancora em direcção a sul, pela única estrada que existe nesse sentido no Norte do Peru pensava que a paisagem iria ser similar à que tinha encontrado no Ecuador, mas é totalmente distinta. Atravessamos primeiro uma espécie de Savana, que lembra a Africana, com pouca vegetação e rasteira, para depois passarmos para uma parte de verdadeiro deserto.
Por sorte pus gasolina ao sair de Mancora, porque tinha pouca pois fiz os primeiros 150 Km sem encontrar uma bomba de gasolina e apenas duas ou três casas na beira da estrada com ar quase abandonado. No entanto passei por vários poços de petróleo  e, ao longo de parte do percurso, havia um “pipeline”.
A estrada tinha partes bem alcatroadas mas grandes buracos traiçoeiros que surgiam quando menos esperava, alguns no meio de curvas. Tinha que ir com enorme atenção ao piso mas mesmo assim escapou-me uma lomba de velocidade, colocada num sítio totalmente despropositado que, quando a vi não tive sequer tempo de travar mas apenas de me pôr em pé na moto que deu um enorme salto.
Passada a vila de Chiclayo, onde voltei a pôr gasolina, aqui bastante mais cara que no Ecuador, apanhei uma recta com 200 Km através do deserto. Não tinha atestado o depósito porque mais uma vez estava à espera de encontrar aldeias e bombas de gasolina mas não há construções nem vivalma, embora a estrada tenha algum movimento, pois é a famosa Pan Americana, que atravessa a America do Sul. Por volta das duas da tarde parei junto ao único restaurante porque passei. Estavam estacionados uns três ou quatro camiões. À porta, do lado de fora, uma espécie de termos grande com uma torneira, em cima de um banco, servia para os clientes lavarem as mãos. Galinhas passeavam no chão de terra à volta do estabelecimento, certamente com os dias contados para entrarem na panela. Quando entrei senti-me um personagem daqueles filmes americanos passados no Texas, com os cowboys de chapéu e de talheres na mão a tirarem os olhos do prato para olharem para o forasteiro que acabava de chegar. Só que aqui eram camionistas e não tinham chapéu.
Não havia água corrente mas o cabrito estufado que comi com arroz e feijão não estava mau. Trazia uma laranja na moto, que me tinham oferecido uns dias antes, que fez de sobremesa.
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