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MOTOS - VOLTA AO MUNDO COM FRANCISCO SANDE E CASTRO - PERU - MACHU PICCHU

Segunda, 04 Dezembro 2017 12:11 | Actualizado em Sexta, 18 Outubro 2019 15:36

Machu Picchu foi edificado no início do século XV. Há quem diga que começou por ser um templo religioso mas a ideia mais comum é que era um Palácio de um governante Inca que o terá construído ali não só por o seu difícil acesso, no alto de uma montanha de altas escarpas, o tornar fácil de proteger de ataques inimigos mas também porque os Incas achavam que, estando mais perto do céu, estavam mais perto dos Deuses.

Um dos guias Incas que ouvi contou que em 1534 , quando os Espanhóis chegaram a Machu Picchu, embora fossem apenas 170 contra quase 3.000 Incas, dominaram facilmente a cidade porque os Incas, ao verem aqueles homens de grandes barbas e armaduras brilhantes pensaram tratar-se de Deuses e não se defenderam. O seu chefe, como herege, foi condenado a ser queimado na fogueira mas, perante a contestação do povo a uma morte tão pouco digna para um lider, deram-lhe a alternativa de ser baptizado e, assim sendo, foi decapitado.
Deambulei por Machu Picchu pouco mais de duas horas e depois comecei a descer a pé os milhares de degraus abertos na floresta que vão cortando mais ou menos a direito, por várias vezes, a ziguezagueante estrada por onde sobem os autocarros que para ali foram levados de comboio. pois não há estrada desde o local onde deixei a moto.
Enquanto descia fui-me cruzando com várias corajosas pessoas que subiam a pé. Desde uma família Inca em que o homem levava uma criança pela mão enquanto a mais velha caminhava ao lado e a mãe, atrás, carregava uma enorme mochila às costas, possivelmente com as refeições e água para o dia. Disse ao homem que não estava certo mas ele riu-se e a mulher olhou-me com um ar resignado. Cruzei-me também com um simpático brasileiro, que estava a viajar desde o Brasil numa pequena 125 e acabámos por ficar quase meia hora à conversa, entre dois degraus. Mais em baixo vinha um grupo extraordinário, crentes num guia espiritual que trazia um chapéu de penas espetadas em todos os sentidos e soprava um búzio que emitia um som grave do tipo farol de nevoeiro, acompanhado por um segundo soprador de búzios. Os homens vinham vestidos de túnicas brancas, alguns descalços e as mulheres com vestidos ou calças e blusas também muito largos e leves. Uma espécie de hippies dos tempos modernos.

- De onde são? perguntei a um deles

- Do mundo.
- Do mundo? Mas de que parte do mundo?
- De todo o mundo e fomos aqui trazidos por este nosso guia espiritual.
O guia espiritual não tinha o ar de guiar ninguém, pois a sua expressão transmitia uma enorme falta de confiança nele próprio mas os discípulos pareciam encantados com este homem de chapéu de penas a tocar um búzio.
Mais em baixo conheci duas simpáticas Suecas que vinham também a descer e fizemos a caminhada de três horas até à hidroeléctrica juntos à conversa, o que fez o caminho parecer muito mais curto que na ida. Acabámos por ficar a almoçar por ali para depois elas seguirem de autocarro de volta a Cusco e eu na moto.




 


Machu Picchu


Os últimos 60 Km a caminho de Machu Picchu, a partir de Santa Maria até à chamada Hidroeléctrica, o fim da estrada, são em terra, através de um trajecto aberto na montanha que, em certos locais, é bastante estreito e tem, do lado esquerdo de quem vai neste sentido, um precipício de centenas de metros para um vale com um rio. A vista é fantástica mas devemos tomar o máximo cuidado para não sermos responsáveis por acrescentarem mais uma cruz às várias que se vêm nas bordas do percurso.
Chegados à Hidroeléctrica há duas soluções para chegar à aldeia de Águas Calientes, junto à subida que nos leva a Matchu Picchu: ou apanhamos um comboio que sai duas ou três vezes por dia para percorrer o percurso de 8 Km ou caminhamos junto à linha até lá chegar. Muitos dos turistas optam por esta ultima solução até porque o preço do bilhete de comboio para estrangeiros é de 12 dólares em cada sentido.
Assim, peguei na mochila com um mínimo de roupa e uma garrafa de água e pus-me a caminho. São mais de duas horas se formos num ritmo lento por um trajecto muitas vezes por cima de pedras.
Cheguei a Águas Calientes pela uma da tarde e, depois de me instalar num Hotel e comprar os bilhetes de entrada em Matchu Picchu para o dia seguinte e de autocarro para subir até lá, poupando-me a uma escalada íngreme em degraus de hora e meia, fui almoçar a um dos restaurantes junto á estação dum comboio que parece extraído de um livro de Agatha Christie.
Madruguei na manhã seguinte. O primeiro autocarro saía às cinco e meia da manhã e achei que subindo nesse apanhava muito pouca gente. Quando cheguei à paragem estava uma fila de uns 200 metros.
- Isto é sempre assim?, perguntei á menina do café junto onde decidi tomar o pequeno almoço.
- Sim. A fila começa a ser formada diariamente pelas três da manhã. E há muita gente que sai de aqui às quatro a pé, ainda de noite, para lá estar na abertura, às seis.
Felizmente esperei menos de meia hora para apanhar um dos autocarros e às seis e um quarto estava a entrar em Machu Picchu.
Vale a pena o esforço. O lugar é mágico, principalmente pela paisagem à volta daquela velha cidade construída pelos Incas há mais de quinhentos anos. Estamos no alto de uma de várias montanhas praticamente inacessíveis, tal é a inclinação das verdejantes escarpas. Magnífico. Percebi o sucesso do local entre turistas estrangeiros e locais.
A propósito, quando estava a passear pela parte superior e, sem querer estar obrigado a seguir um guia ía ouvindo uma e outra explicação de diferentes guias em várias línguas, encontrei um grupo de crianças indígenas que tinha vindo visitar Machu Picchu com professores e alguns dos pais. Estavam todos radiantes, como se fosse um dia muito especial embora não vivessem longe de ali. E era. Estive à conversa com uma das mães que me contou que para eles é caríssimo deslocarem-se àquele lugar que faz parte da sua história. Disse-me que a família dela tinha estado a poupar durante dois anos para poderem estar ali hoje.

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